• Valéria Palma

A compaixão na pandemia


"Para os profissionais de saúde que estão envolvidos na linha de frente, o ato da compaixão extrapola a ciência”, diz Alexandre Silva

Não há mais dúvidas: estamos interconectados e somos corresponsáveis uns pelos outros não apenas no sentido figurado ou simbólico. Cara a cara com a pandemia, com a ideia da globalização na ordem concreta da vida, a ação de cada um de nós implica consequências no coletivo e vice-versa.

Embora o sentimento coletivo seja de incerteza, tristeza e medo, ele também nos mobiliza pela ética da compaixão. “O sentido da compaixão, neste momento, se estende a todos. É cuidar para que um barco gigante não afunde. Agora é um momento de mãos dadas, caminharmos juntos porque todos estão expostos ao problema”, comenta Alexandre Silva, enfermeiro, doutor e mestre em Cuidados Paliativos, professor da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais.

Desde o início da epidemia, mais de 1 milhão de pessoas em 190 países foram diagnosticadas com a

covid-19 e cerca de 65 mil foram a óbito (AFP-Agence France-Presse, 5/4/2020). Frente a essa realidade,

a compaixão e o que ela mobiliza ganham extensão muito maior. “A gente sabe e a literatura mostra que quando há tragédia e sofrimento em massa a sociedade se comove e age mais. Tem um grupo que se desespera, entra em pânico e se fecha, mas um grande grupo transforma essa dor em ação”, explica Silva, para quem “a compaixão é ação, o ato de se colocar à frente e fazer alguma coisa para mudar o sofrimento do outro.”

Compaixão e ação

E o que podemos fazer na prática? “Diante do distanciamento e das regras do isolamento, temos a possibilidade de fazer algo em comunidade. Podemos ativar por redes sociais, isso facilita muito. Por exemplo, com grupo de comunidade compassiva do Rio Janeiro, liderados pelo Instituto Elisabeth Kübler-Ross e por meio do psicólogo Rodrigo Luz, criamos uma Vakinha virtual e conseguimos arrecadar um valor significativo para doação. Articulados de forma totalmente virtual, vamos fazer a doação deste dinheiro para as pessoas da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, por meio da Associação de moradores, comprarem comida e água sanitária. Outra coisa muito importante que cada pessoa pode fazer para solidarizar com os outros diante dessa situação é se colocar à disposição para prevenir os riscos – eu comigo mesmo inicialmente, para depois servir os outros”, diz Alexandre.

Os profissionais de saúde, diretamente implicados neste cenário novo e difícil, são o motor principal da força-tarefa. “Eu acredito que para médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e todos os profissionais de saúde que estão envolvidos na linha de frente, o ato da compaixão extrapola a ciência. Eles têm a ciência para colocar em prática, para poder agir no que precisa, mas antes de tudo se travestem de um ato valente e corajoso de se colocar à frente salvando vidas. Ou seja, muito mais do que contemplar tudo isso, eles vão à linha de frente e atuam”, ressalta.

Vulneráveis e ajuda em comunidade

A realidade salta aos olhos quando destacamos as populações vulneráveis de todo o país, a quem Alexandre Silva identifica como “vulneradas”. “Vulnerada é a população que já está no risco, já está no meio do problema. Por exemplo, a população em situação de rua, moradores de favelas (aglomerados subnormais) já estão em risco. O que eu percebo, principalmente nas favelas, é a autoajuda, a comunidade ajudando ela mesma, às vezes contando com o apoio técnico de fora, mas um vizinho cuidando do outro,

ou ainda mais, uma pessoa dentro da própria casa fazendo o isolamento por meio de varal e cobertor”.

“Há muitas pessoas acamadas nessas comunidades, idosos, ou seja, pessoas em situação de risco. Precisamos fornecer insumos básicos para que essas pessoas possam se prevenir. Para aquelas pessoas que podem, isolamento social de fato precisa acontecer. Os que não podem, que têm que sair para trabalhar, devem seguir todas as orientações técnicas de prevenção”, destaca Alexandre, lembrando que

“a possibilidade de passar o mesmo que o outro está passando faz com que as pessoas possam se mover ainda mais para ajudar. Percebo que muitas pessoas ajudam justamente por imaginar que amanhã um de nós pode estar nesta situação.”

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