• Douglas Crispim

Idosos conectados vão lidar melhor com o isolamento na Covid-19

Aplicativos de mensagens por vídeo e viva-voz são ferramentas de mediação estratégicas para manter os laços sociais dos nossos idosos durante o isolamento social

O distanciamento social necessário para conter a pandemia da Covid-19 impõe uma série de desafios que fogem à lógica da rotina a qual estamos habituados. Quando se trata dos idosos, grupo de risco que precisa de maior proteção e cuidados, o alerta é ainda maior. No isolamento, longe dos familiares e pessoas do convívio, os idosos ficam expostos a maiores riscos de sofrimento psíquico, solidão, aumento do estresse.

Temos que considerar os diferentes contextos em que estas pessoas estão vivendo o isolamento necessário: há o grupo de idosos saudáveis, em isolamento social nas suas casas, os idosos com sintomas, respeitando o período de quarentena além do isolamento social, e os idosos internados, isolados da família e com a equipe médica também com restrições de contato. Independente do cenário, nós precisamos usar a criatividade, nos adaptar o quanto antes e conectar os nossos idosos via internet.

Felizmente, em plena era pós-digital, a realidade dos recursos da tecnologia difundidos pelos quatro cantos do Brasil jogam a nosso favor. Mesmo que exista uma parcela dos idosos sem habilidade para manejar bem um celular ou os aplicativos de mensagem, alguém do seu convívio próximo saberá manejá-los.

Já não é mais generalização dizer que praticamente todo mundo tem um aparelho de celular conectado à internet no Brasil. As informações da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) de 2018, do IBGE, apontam que 96,0% da população brasileira morava em domicílios que possuíam pelo menos um aparelho telefônico de linha fixa ou um morador com um aparelho celular. Justamente os celulares que levam a internet para a maioria da população: 79,9% dos brasileiros vivem em lares com internet fixa ou móvel. Mesmo na população abaixo da linha da pobreza, 65,9% têm internet em casa, móvel ou fixa[1].

Mais específicos em relação à população idosa, dados da pesquisa TIC Domicílios – Tecnologias da Informação e da Comunicação, também de 2018, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.Br)/ Comitê Gestor da Internet no Brasil, destacam as pessoas com 60 anos ou mais como população que utiliza cada vez mais a internet para mandar mensagens, fazer chamadas de voz e vídeo e compartilhar conteúdos. Deste grupo de conectados com 60+, 58% acessa a internet pelos aparelhos celulares (gráfico abaixo).

Um dos principais fenômenos revelados pela pesquisa TIC, desde 2005, foi a ascensão do uso do telefone celular para acessar a internet. Em 2017, a pesquisa já mostrava que o uso do aparelho para acessar a internet era quase universal entre os brasileiros, resultado que se manteve em 2018, quando a importância do dispositivo se mostrou ainda mais acentuada, já que, neste ano, o estudo revelou que a maioria dos usuários de internet utilizou a rede apenas no telefone celular (56%). O uso de internet exclusivamente pelo telefone celular, como mostra a pesquisa, é um fenômeno que cresceu especialmente entre parcelas mais vulneráveis da população, como entre usuários de classes e rendimento familiar mais baixos[2].

Os dados confirmam nossa percepção de que grande parte dos brasileiros tem um celular conectado à internet e pelo menos um aplicativo de conversa em vídeo ou viva-voz, por mais simples que o aparelho seja.

Precisamos levar este recurso para o enfrentamento da pandemia nas rotinas dos hospitais (o Conselho Federal de Medicina reconhece o WhatsApp como uma ferramenta de comunicação no parecer nº 14/2017). Neste momento, há milhares de idosos doentes, sozinhos, há dias nos hospitais sem poder ver ou falar com seus familiares. Com a tecnologia em nossas mãos, não é necessário manter essas pessoas sem nenhum contato com o ambiente externo. As instituições precisam se adaptar e organizar times de comunicação integrados com as equipes para viabilizar o uso dos celulares e tablets nos leitos.

O documento técnico Visitas Virtuais – Covid-19, escrito por um grupo multidisciplinar de estudiosos da área de comunicação em saúde e voltado para as melhores práticas de comunicação durante a pandemia, em 2020, fornece um conjunto objetivo de recomendações para a organização dos serviços de comunicação e atendimento dos funcionários de saúde. A intenção é reduzir o sofrimento de pacientes, familiares e profissionais da saúde.

A conexão virtual tem se mostrado como estratégia acessível e de baixo custo na contenção e mitigação dos impactos negativos que o isolamento pode causar nos idosos. Precisamos recorrer à nossa capacidade de adaptação e aproveitar as ferramentas disponíveis em nome das melhores práticas médicas possíveis neste momento de pandemia. Uma chamada de vídeo ou viva-voz pelo aplicativo não substitui a presença física, o abraço, mas de certa forma, no isolamento em casa ou no hospital, o paciente terá uma experiência familiar, social e afetiva de acolhimento que pode ser determinante na sua vivência mais íntima e pessoal.

Confira entrevista na Globo News-RJ: Como proteger os idosos no período de isolamento

Parte 1

https://video.wixstatic.com/video/08a8f2_b025e8ce55304c0ba2500bd4720af3bc/480p/mp4/file.mp4

Parte 2

https://video.wixstatic.com/video/08a8f2_0a10e2ad5bbe4ac4bb96ea1f65f4d556/480p/mp4/file.mp4

[1] Daniela Amorim e Vinicius Neder. IBGE: 35,7% dos brasileiros vivem sem esgoto, mas 79,9% da população já tem acesso à internet. Estadão Conteúdo, Economia, 6/11/2019.

[2] Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros: TIC Domicílios 2018 [livro eletrônico]. Considerações Finais: Agenda para Políticas Públicas, pg. 136. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2019.

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