• Henrique Canosa

Hipnose. Que “droga” é esta?

"Provavelmente há mais cura nas palavras do médico do que em muitas drogas que ele prescreve”

Voltaire (Paris, 1694-1778)

Muitas vezes quando eu falo que faço hipnose as pessoas ficam bastante surpresas e a primeira pergunta que me fazem é: “Como assim? Que droga é esta?”.

Conforme eu fui estudando e aprendendo mais sobre a hipnose, cheguei a conclusão de que realmente a hipnose é uma droga. Mas não droga no sentido pejorativo, e sim droga no sentido de medicamento. Hoje eu sinto que a hipnose pode ser um medicamento a mais no tratamento e no controle de sintomas de várias doenças.

Minha impressão é de que a hipnose ainda é uma área do conhecimento humano (ciência) pouco difundida e com grandes mistérios e preconceitos. Muita gente fala de hipnose como uma coisa mística, nebulosa, quase que uma seita macabra. E não é nada disso. Por este motivo, fiquei bastante estimulado em escrever este capítulo que tem como objetivo divulgar e desmistificar a hipnose para os profissionais da área da saúde.

O que é hipnose?

Quando falamos de hipnose, a primeira ideia que vem à cabeça das pessoas é a hipnose de palco, por ser a mais divulgada e conhecida. Mas uma coisa que muita gente desconhece é que a hipnose pode ser uma grande aliada no controle de sintomas e no tratamento de diversas doenças.

A definição de hipnose proposta pelo Comitê Executivo da American Psychological Association - Divisão de Psychological Hypnosis é: “um procedimento no qual o profissional (hipnólogo) sugere a uma pessoa (paciente) uma mudança nas sensações, percepções, pensamentos ou comportamentos”. Embora a hipnose tenha sido uma técnica controversa, a maioria dos clínicos agora concordam que ela pode ser uma técnica terapêutica poderosa e eficaz para uma ampla gama de condições, incluindo distúrbios de dor, ansiedade e humor. É também uma técnica que pode ajudar as pessoas a mudar seus hábitos, como parar de fumar (1).

Uma definição mais simples é de que a hipnose é um estado de relaxamento, concentração e visualização mental, que pode ocorrer de forma espontânea ou induzida, na qual o senso crítico fica reduzido, dispondo a pessoa a experimentar coisas imaginárias como se fossem reais.

A hipnose é um estado mental natural que pode ocorrer espontaneamente ou ser induzido intencionalmente. Ocorre quando há uma inversão entre as mentes consciente e subconsciente. A mente subconsciente fica em primeiro plano, enquanto a mente consciente fica em segundo plano, sendo assim, uma ideia pode ser aceita de forma plena pelo subconsciente. Para que isso aconteça de forma intencional é preciso que o fator crítico da mente consciente, seja atravessado. O fator crítico nada mais é do que o consciente dizendo: “não vai dar certo, isso não existe, não funciona”. É uma “barreira” que protege a mente subconsciente. No momento em que ele é atravessado (estado de transe) podemos modificar uma memória e diminuir as sensações físicas causadas por uma lembrança (por exemplo, no caso de um medo, diminuir as sensações físicas que o medo causa).

Um exemplo de hipnose: a criança se machuca e vem chorando para a mãe. Ela simplesmente diz que a dor irá passar quando ela der um beijo ou assoprar. E na hora que ela dá um beijo no local do machucado a criança para de sentir a dor. Isso ocorre porque a criança tem plena certeza de que aquilo irá melhorar sua dor, que a dor desaparece. O senso crítico da criança foi reduzido pela confiança plena que ela tem na mãe. Outra forma de hipnose ocorre quando estamos tão focados em algo que fazemos as coisas de forma automática. Por exemplo, chegamos em um lugar e estávamos tão “distraídos” que não lembramos ao certo qual caminho utilizamos, se estava com muito trânsito ou se passamos ou não por algum conhecido. Esse estado de ficar “desligado” e fazer as coisas no automático é o transe (que ocorre em muitas vezes de forma espontânea).

Muitos hospitais em diversas partes do mundo usam a hipnose para controle de sintomas. Alguns exemplos são: Hospital das Clínicas de São Paulo (alguns estudos em andamento com hipnose para controle de dor), MD Anderson Cancer Center, nos EUA (uso da hipnose em paciente com câncer com o objetivo de controle sintomas decorrentes do tratamento), Hospital Saint-Louis, em Paris (muitos profissionais têm formação em hipnose e utilizam esta técnica para fazer procedimentos dolorosos como coleta de mielograma), entre outros.

A hipnose pode ser encontrada em diversos trabalhos científicos e guidelines de sociedades médicas reconhecidas mundialmente, por exemplo, a Sociedade Brasileira de Cuidados Paliativos publicou em 2011 um Consenso de Náuseas e Vômitos e indica a hipnose como uma técnica que pode ser usada para o controle deste sintoma em pacientes em cuidados paliativos (2). O World Journal of Gastrointestinal Oncology publicou em 2016 uma revisão sobre tratamento de dor em pacientes com neoplasia pancreática, e indica a hipnose como uma técnica segura e eficaz no controle deste tipo de dor (3). Lembrando que a dor causada pelo câncer de pâncreas é uma dor de difícil controle pois seu mecanismo de ação envolve lesão neural, inflamação local e obstrução.

Spiegel et al. publicaram um artigo bastante interessante em 2017 no American Journal of Clinical Hypnosis que demonstra que a hipnose tem efeito em áreas do cérebro associadas com a dor, como córtex cingulado anterior e córtex somatossensorial, sendo um método que ajuda pacientes com câncer a melhorar ansiedade, insônia e tristeza. Eles concluíram ainda que a hipnose altera a sensação de dor do paciente, diminui o estresse, a ansiedade, ajudando na mudança da realidade da vida dos pacientes com câncer (4).

Outro estudo publicado em 2018 no Annals of Palliative Medicine conclui que os pacientes que receberam hipnose como terapia adjuvante apresentaram diminuição estatisticamente significativa na dor e na ansiedade. Usaram menores doses de medicamentos analgésicos a longo prazo (1-2 anos) comparado com o grupo controle. Este estudo sugere que a hipnose pode ser considerada uma terapia adjuvante eficaz para o controle da dor e ansiedade no câncer, bem como em doenças crônicas graves para pacientes em cuidados paliativos (5).

Um estudo publicado em 2016 no The Journal of Thoracic and Cardiovascular Surgery com paciente submetidos a hipnose para realização de cirurgias cardíacas eletivas demonstrou que a esses pacientes tiveram uma menor taxa de ansiedade e depressão, utilizaram menores doses de opioides no pós-operatório e um tempo menor de ventilação mecânica (6).

O The Journal of Emergency Medicine publicou em 2014 uma revisão sobre hipnose no serviço de emergência e concluiu que a hipnose tem um enorme potencial como ferramenta não farmacológica segura para o atendimento de pacientes em serviços de emergência, cuidados pré-hospitalares e ambientes médicos remotos. O uso da hipnose na emergência exigirá educação e treinamento da técnica e, eventualmente, sua inclusão nos currículos obrigatórios (7). Montgomery et al. (2010) publicaram um estudo randomizado com 200 pacientes submetidos à cirurgia conservadora para câncer de mama que receberam no pré-operatório hipnose ou terapia de suporte como grupo controle. O estudo demonstrou que o grupo tratado com hipnoterapia apresentou menor taxa de náuseas no pós-operatório (8).

Um dos primeiros usos documentados da hipnose com um paciente com câncer foi como anestesia para a cirurgia de câncer de mama. Em 1829, Dr. Chapelain usou a hipnose (então referida como mesmerismo) durante um período de vários meses para aliviar o sofrimento de Madame Plantin, que tinha um câncer ulcerado da mama direita com extenso comprometimento linfonodal. Em 1 de abril de 1829, em Paris, Chapelain utilizou hipnose como anestésico durante a cirurgia de mastectomia e ressecção de linfonodos axilares. Isso ocorreu antes da introdução de técnicas modernas de anestesia (9). Alguns centros médicos da França utilizam rotineiramente a hipnose no serviço de emergência e estão capacitando os profissionais para o uso da hipnose também no serviço pré-hospitalar.

A hipnose pode ser usada de diversas maneiras, tanto para o controle rápido de um sintoma como associada a psicoterapia. Pode ajudar na:

  • Melhora da autoestima e autoconfiança

  • Controle de sintomas como dor, náuseas, ansiedade e dispneia

  • Aumento da consciência corporal

  • Aumento da motivação no trabalho, escola, esporte etc.

  • Controle de estresse

  • Aumento do foco e da concentração

  • Auxiliar na diminuição do tabagismo

  • Controlar ou eliminar enxaqueca

  • Controle do bruxismo

  • Eliminar medos (fobias)

  • Relaxar tensões

  • Melhorar ou eliminar gagueira

  • Auxiliar no controle e tratamento da depressão

  • Controle do peso corporal

  • Melhorar ou eliminar traumas

Tipos de hipnose

  • Hipnose Clínica

É considerado hipnose clínica o uso da hipnose como auxiliar no tratamento de doenças como depressão, enxaqueca, ansiedade, compulsões, fobias, entre outras.

  • Hipnose Médica

É considerado hipnose médica o uso da hipnose no tratamento de dores durante procedimentos cirúrgicos ou outras condições médicas como queimaduras, síndrome do intestino irritável, entre outras.

  • Terapia com hipnose ou Hipnoterapia

É considerado hipnoterapia o uso de técnicas ou métodos terapêuticos durante o estado hipnótico.

Hipnoterapia

Partimos do princípio que a pessoa não nasceu doente, ela desenvolveu a doença através de sua vida (uterina ou pós-uterina), e que as doenças são decorrentes de emoções e sentimentos “mal administrados”. Por exemplo, quando uma pessoa é ameaçada, ela poderá correr, brigar ou congelar. No momento que ela não usa a energia para brigar ou correr (a pessoa congela), esta energia fica “acumulada” no cérebro causando um pequeno desconforto. Com o passar do tempo e a repetição deste desconforto, vai causando doenças no corpo físico. Através de hipnose é possível “voltar” no momento onde este desconforto começou e “liberar” a energia que estava acumulada no cérebro (brigar ou correr), evitando ou melhorando assim as doenças físicas.

Esta ligação entre mente e corpo é de extrema importância para a nossa saúde plena. Para exemplificar esta ligação podemos pegar como exemplo a imaginação. Se uma pessoa imaginar que tem um prato de comida na sua frente, em apenas alguns segundos o corpo começa a se preparar para comer (aumento da salivação, aumento do ácido do estômago, aumento da peristalse do esôfago). Ou, se imaginarmos algo que nos dá medo, o corpo imediatamente responde a isso (aumentando a frequência do coração, modificando a circulação do sangue, aumentando a frequência da respiração etc.). O simples fato de imaginar causa alterações físicas. Como estes, existem vários outros exemplos.

O profissional da saúde consegue "quebrar" o fator crítico da pessoa pelo simples fato de ser o "expert" naquele assunto. Quando ele diz: “esse remédio dará sono”, a maior parte dos pacientes relata que dormiu melhor à noite. Isso ocorre porque a pessoa terá a postura de "eu gosto desta sugestão. Sei que funcionará comigo”. Efeito placebo é uma forma de hipnose também. O paciente acredita que aquele remédio vai curar, que realmente cura, mesmo não sendo um remédio “real”. A pessoa tem a fé, a convicção de que vai melhorar e realmente melhora. Isso é uma hipnose. O cérebro modifica o corpo físico e controla ou mesmo cura uma doença.

Papel do profissional da saúde como hipnólogo

Quando o profissional da saúde fala que não há tratamento e que a pessoa vai morrer, realmente a pessoa piora e morre em pouco tempo. Isso tem um papel importante pois a pessoa acredita na figura do profissional. Por muitos séculos, os profissionais da saúde (principalmente o médico) foram considerados um “Semi-Deus”, pois eles têm (na imaginação das pessoas) o “poder” de aliviar a dor, de aliviar o sofrimento e de curar. Isso é uma forma de hipnose consciente. A pessoa acredita/confia tanto de que aquilo que o profissional disse vai acontecer, que realmente acontece. Por isso a importância de usar esta “técnica” de forma consciente para melhorar o paciente.

O profissional da saúde usa uma “capa” como a de um super-herói. Tem o poder da acalmar a pessoa que está sofrendo, diminuindo assim o estresse, aumentando a adesão do tratamento, deixando o paciente mais seguro, diminuindo a necessidade de medicamentos e exames, reduzindo tempo de hospitalização e mortes causadas por erros médicos. No meu ponto de vista, a hipnose pode ser considerada uma droga de baixo custo (o único custo é o tempo gasto pelo profissional da saúde para hipnotizar o paciente), que pode ser usada em diversas doenças, pode ser usada por crianças, jovens, adultos e idosos, tem efeito rápido e pode ser utilizada como automedicação, sem efeitos colaterais e não tem contraindicação. Minha esperança é de que todos os profissionais da área da saúde saibam aplicar esta técnica e possam assim beneficiar cada vez mais seus pacientes.

Este texto foi extraído do livro:

Piatti, Isabel; Menezes Monteiro, Vanessa. Hipnose – Que "droga" é esta?. Cap.8. Canosa, Henrique. Estética Paliativa e Humanizada. Título Independente, Curitiba, PR, 2019, p. 154-160.

Bibliografia

  1. https://www.apa.org/topics/hypnosis/

  2. Caponero R. et al. Consenso Brasileiro de Náuseas e Vômitos. Revista Brasileira de Cuidados Paliativos 2011; 3 (3) - Suplemento 2

  3. Lahoud MJ, Kourie HR, Antoun J, El Osta L, Ghosn M. Road map for pain management in pancreatic cancer: A review. World J Gastrointest Oncol 2016 August 15; 8(8): 599-606

  4. Wortzel, J., Spiegel,D.: Hypnosis in Cancer Care. American journal of clinical hypnosis 60 (1): 4-17, 2017.

  5. Brugnoli MP, Pesce G, Pasin E, Basile MF, Tamburin S, Polati E. The role of clinical hypnosis and self-hypnosis to relief pain and anxiety in severe chronic diseases in palliative care: a 2-year long-term follow-up of treatment in a nonrandomized clinical trial. Annals of Palliative Medicine.2018 Jan;7(1):17-31

  6. Akgul et al. The beneficial effect of hypnosis in elective cardiac surgery: A preliminary study. Thorac Cardiovasc Surg. 2016; 64(07): 581-588

  7. Iserson, KV. An Hypnotic Suggestion: Review of Hypnosis for Clinical Emergency Care. Journal of Emergency Medicine; 2014 Apr; 46 (4): 588-96

  8. Montgomery GH, Hallquist MN, Schnur JB, David D, Silverstein JH, Dana H. Bovbjerg DH. Mediators of a Brief Hypnosis Intervention to Control Side Effects in Breast Surgery Patients: Response Expectancies and Emotional Distress. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 78(1):80-8, 2010.

  9. Montgomery GH et al. Hypnosis for Cancer Care: Over 200 years young. CA Cancer J Clin 2013; 63:31-44.

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