• Graziela Fernandes Todesco

Voluntários: os heróis anônimos da tragédia de Brumadinho


Tenente Maycon Cristo, bombeiro paulista: “Cheguei em Minas, uma pessoa e a deixei por lá. Junto à lama. A grande lição para quem sobrevive ou acompanha de perto tragédias como esta é a de valorização da vida, da família e das pessoas que amamos. Não deixe o abraço para amanhã. Não deixe de demonstrar sentimentos, pois pode não ser mais possível” (Foto: Professor Antonio, documentarista de Curitiba/PR. Imagem cedida da rede social do tenente)

Era início da tarde, quando a moradora D.P de Brumadinho tentava se aproximar da cidade onde mora quando soube da tragédia do rompimento da barragem da Vale. Numa via de acesso à cidade mineira, parou o seu carro diante de uma correnteza de lama que descia, bloqueando a passagem, olhava estarrecida.

Inconformada, só pensava numa forma de ajudar os familiares dos desaparecidos e outras famílias atingidas pela lama, foi isso que ela e um grupo de amigos fizeram, e não foram os únicos. A comoção mobilizou centenas de brasileiros, segundo a plataforma Transforma Brasil, foram mais de 7 mil voluntários cadastrados para atuar em Brumadinho.

Nos dias que se seguiram, uma verdadeira corrente solidária na cidade. Além dos moradores da cidade, voluntários de todas as regiões do Brasil, profissionais de saúde, psicólogos, bombeiros, policiais civis, todos com um único propósito: ser voluntário.

Em situações como esta o voluntariado é o verdadeiro agente de transformação. Através de um impulso solidário, o objetivo é de alguma forma atender as necessidades de quem tanto precisa.

Um destes agentes de transformação na tragédia mineira é o Tenente Maycon Cristo, que atua no Corpo de Bombeiros em São Paulo, há 15 anos. Juntamente com outros bombeiros paulistas atuou como bombeiro voluntário nas buscas pelas vítimas em meio ao lamaçal que se formou da barragem que estourou em Brumadinho.

Foram sete dias entre deslocamento e atuação na lama. Esta foi a primeira vez que o tenente atuou como voluntário numa tragédia. Ele conta que a decisão de partir para Minas Gerais foi tomada logo após o anúncio de que o governo paulista encaminharia um grupo para ajudar nas buscas. “A primeira imagem impactante foi quando o helicóptero decolou com minha equipe: a extensão da lama, era tudo tão minúsculo diante daquele mar de lama. Nunca esquecerei”, contou o tenente.

Equipe do Tenente Maycon Cristo embarcam no helicóptero para sobrevoo na área afetada pela lama da Barragem de Feijão, em Brumadinho (MG). Foto: Professor Antonio, documentarista de Curitiba/PR. Imagem cedida da rede social do tenente) Durante os dias que o tenente e sua equipe percorreram a lama em busca de vítimas, vivenciaram um misto de emoções. “Foram dias de extremo cansaço físico, os deslocamentos sobre a lama eram desgastantes e o sol forte alternado com pancadas de chuva aumentavam esse desgaste. Além do esgotamento físico, vivemos sobressaltos emocionais. Era sempre um momento de emoção muito forte quando tínhamos contatos com familiares de vítimas. Todos os dias, ali na margem da lama, pais, mães, filhos de desaparecidos acompanharam nossas buscas. Quando voltávamos para a margem faltavam palavras pra acalentar, mas ao mesmo tempo era uma mola impulsora pra continuar as buscas, por mais exausto que estivesse”, contou emocionado.

Tenente Maycon Cristo e Soldado Marcio nas buscas por vítimas Foto: Professor Antonio, documentarista de Curitiba/PR. Imagem cedida da rede social do tenente) De volta para a capital, o tenente comovido fala que os dias que seguiram nas buscas sem êxito pelas vítimas da tragédia possibilitaram mudanças importantes na forma como se relaciona com a vida. “Cheguei em Minas, uma pessoa e a deixei por lá. Junto à lama. A grande lição para quem sobrevive ou acompanha de perto tragédias como esta é a de valorização da vida, da família e das pessoas que amamos. Não deixe o abraço para amanhã. Não deixe de demonstrar sentimentos, pois pode não ser mais possível”, conclui o voluntário. Para a psicóloga Daniela Bernardes, nestas situações as pessoas respondem mais rapidamente ao lado humano de ajudar, de socorrer, de aliviar sofrimentos. “Nestas mobilizações fortalecemos laços, numa união que, mesmo diante de uma tragédia, nos permitem experienciar boas lições, ou seja, cada um de nós, assim como o tenente Maycon Cristo, sai desta vivência um ser humano melhor, quando como ele, oportuniza enxergar para além da tragédia, para além do sofrimento, enxergar que mesmo em meio ao caos há solidariedade e amor envolvidos, há ressignificação do valor do tempo e das experiências da própria vida, junto a uma corrente de seres que se humanizam a partir de algo do tipo e se transformam positivamente”. Os voluntários de tragédia como a Brumadinho são os heróis anônimos de nossa sociedade. Incansáveis e destemidos, como o Tenente Maycon Cristo que junto com sua equipe e o grupo de bombeiros voluntários mostraram que não há barreiras, cansaço, limitações físicas e emocionais, há um único desejo de servir, estarem dispostos para estarem às mãos ao menos lançar um abraço solidário para quem tanto precisa. No fechamento desta edição, recebemos a informação de que, mais uma equipe da corporação paulista seguiu para Brumadinho. São quatro bombeiros do 14º. Grupamento paulista que partiram na quarta-feira, 13/02, para missão humanitária em Minas Gerais. EFETIVO EMPREGADO NA MISSÃO EM BRUMADINHO Total do efetivo: 327 Bombeiros de Minas Gerais: 150 Bombeiros de outros Estados: 94 Militares da Força Nacional: 64 Voluntários: 19 Fonte: Corpo de Bombeiros de MG

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